sexta-feira, 22 de abril de 2011

A sabedoria como meio para resgatar a auto-estima


Aos quinze anos, me dispus a aprender
Aos trinta, firmei os pés no chão
Aos quarenta, já não sofria perplexidades
Aos cinquenta, conhecia as solicitações do Céu
Aos sessenta, as ouvia com ouvidos dóceis
Aos setenta, pude seguir os ditames do coração”...

Confúcio - 551/479 AC
Filosofo/Teórico Social



Dr. João de Souza Filho

Há 22 anos, como médico e terapeuta transpessoal, actuando na área da saúde plena das pessoas na terceira idade, frequentemente ouço questionamentos que se apresentam muito mais como afirmação embutida do que dúvida tácita: “O que tem de positivo em envelhecer? E complementam com todas as inequívocas degenerescências físicas próprias dessa faixa etária, ou seja, rugas, compleição muscular, debilidade óssea, perda da acuidade visual e auditiva, etc., como que já querendo convencer-me de que nada tem de positivo em envelhecer.  
Numa análise menos prudente corre-se o risco de concordar com tais colocações. Porém, cabe aqui uma auto-análise: Quem é responsável por essa convicção do idoso? (Definimos IDOSO qualquer pessoa acima de 60 anos).  
Num questionário informal que fizemos, ao longo de nosso trabalho na área, com indivíduos de 20 a 40 anos, por ocasião de cursos, palestras, atendimentos de clínica, abrangendo os mais diferentes níveis intelectuais, sociais, culturais e étnicos, causou-nos surpresa o número de respostas “VERDADEIRA A AFIRMAÇÃO” (as opções eram: verdadeira ou falsa), de cerca de 91% de  entrevistados para as questões abaixo:  
1. O IDOSO PERDE A CAPACIDADE DE APRENDER?
2. O IDOSO É INCAPAZ DE MEMORIZAR ALGO?
3. A INTELIGÊNCIA DIMINUI COM A IDADE?
4. O IDOSO PERDE TODA CAPACIDADE SEXUAL?
5. A VELHICE É DOENCA?
6. O IDOSO ESTÁ MAIS PERTO DA MORTE?
7. O IDOSO NAO TEM FUTURO OU SONHOS?  
As respostas de concordância com as afirmações demonstram como estas crenças estão enraizadas nas populações jovens. E também, como pelo comportamento da faixa etária entrevistada, perante os idosos, pode influir e implantar essas crenças de tal forma que passam a ser verdade absoluta na vida do idoso, agregando comportamentos negativos inerentes a elas. Aí, o resultado é baixa auto estima.  
O que certamente se esquece é a parte positiva do avançar da idade, ou seja, a SABEDORIA. Esta traduz -se pelo aflorar das qualidades e sentimentos interiores tais como: amorozidade, respeito à vida, desenvolvimento da arte do saber escutar, compreensão, paciência, etc. - Virtudes da sabedoria que superam a degenerescência física.  
No decorrer da nossa actuação nessa área, formatamos em parceria com o Instituto Tadashi Kadomoto*, uma vivência que denominamos:
“Resgatando a auto-estima com sabedoria”.
Trata-se de um desafio proposto ao idoso acima de 60 anos (sem limite superior) para ficar dois dias em um hotel em Itu, com o propósito de colocá-lo  defrontando-se com as suas sombras, o seu eu interior, os seus traumas, medos e inseguranças, compartilhando esses sentimentos com o grupo. E assim, estimulando e induzindo o aflorar da sabedoria, pode redignificar e integrar esses sentimentos e comportamentos que o limitam. A ideia desta vivência surgiu das experiências vividas com a interacção junto ao idoso. E acima disso, tendo a percepção da sensibilidade que a idade e por consequência a sabedoria trazem. Todavia, na grande maioria das vezes, é impedida de vir à tona pelas crenças que limitam os idosos, e são condenados.
Percebemos então, que podem viver melhor quando são atendidos de forma holística, respeitando os seus limites e reconhecendo sua imensa SABEDORIA.  
“Venha contar sua história velha, e descobrir uma história nova” 
“Esther pergunta ao velho nómada, por que as pessoas são tristes.  
É simples, responde o velho. Elas estão presas à sua história pessoal. Todo mundo acredita que o objectivo desta vida é seguir um plano. Ninguém se pergunta se este plano é seu, ou foi criado por outra pessoa. Acumulam experiências, memórias, coisas, ideias dos outros, que é mais do que podem carregar. E portanto, esquecem os seus sonhos... 
O que fazer para abandonar esta história que nos contaram?  
Repeti-la em voz alta, nos seus menores detalhes. E, à medida que contamos, nos despedimos do que já fomos e – você verá, se tentar – abrimos espaço para um mundo novo, desconhecido. Repetiremos esta história antiga muitas vezes, até que ela não seja importante para nós.  
Só isso?  
Falta um detalhe: à medida que os espaços vão sendo esvaziados, para evitar que nos causem um sentimento de vazio, é preciso preenchê-los rapidamente – mesmo que seja de maneira provisória.  
Como?  
Com histórias diferentes, experiências diferentes que não ousamos ter, ou que não queremos ter. Assim mudamos. Assim o amor cresce. E quando cresce o amor, crescemos com ele.  
Isso também significa que podemos perder coisas que são importantes.  
Jamais. As coisas importantes sempre ficam – o que vai embora são as coisas que julgávamos importantes, mas são inúteis... (Coelho, 2005:197)  

Reparamos que, à medida que esvaziássemos nossas cabeças de histórias já velhas e vividas, um espaço novo era aberto, uma misteriosa alegria entrava, ficávamos mais corajosos, arriscávamos mais, fazíamos coisas que julgávamos erradas ou certas – mas fazíamos. Os dias eram intensos.” (Idem, p.199)  

Referência:
Coelho, Paulo, O Zahir. Rio de Janeiro: Rocco, 2005



Publicado por: Rosa Maria Rainho Pedro
 
 


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