quarta-feira, 29 de junho de 2011

PSICOLOGIA TRANSPESSOAL E ESPIRITUALIDADE (PARTE 2)



Para a Psicologia Transpessoal, a necessidade de transcendência é envolvida pela espiritualidade: considerada como um “aspecto central no desenvolvimento humano” e como busca de um sentido significativo para a existência; a espiritualidade não deve ser confundida com a prática religiosa, com instituições e dogmas, mas sim como um meio legítimo que possa favorecer “uma ótica de confiança” e torne possível “a perspectiva de uma sociedade melhor” (SALDANHA, 2008, p.149).  
Segundo Leonardo Boff, “espiritualidade tem a ver com experiência, não com dogmas, não com ritos, não com celebrações”, pois essas práticas podem favorecer a vivência da espiritualidade, de certa maneira nasceram da espiritualidade, mas não são a espiritualidade (BOFF, 2001, p.66).
Ao interrogarem Dalai Lama sobre como ele definiria espiritualidade, sua resposta foi: “É aquilo que produz no ser humano uma mudança interior” ( BOFF, 2001, p.16).
Leonardo Boff nos traz ainda uma profunda reflexão sobre “a espiritualidade de Jesus”, estimando duas experiências básicas que ancoram o cristianismo. A primeira como sendo a mística de sentir-se Filho de Deus,  Abbá Pai,  que vem como expressão própria de Jesus e denota uma linguagem infantil como forma de chamar ao pai e ao avô - um Pai de infinita bondade, misericórdia e perdão – que nos irmana em amorosidade e nos reveste de “suprema dignidade” como condição de “família de Deus, de carregarmos Deus dentro de nós e de Deus carregar-nos dentro Dele”. A segunda experiência é anunciada como o Reino de Deus que está no nosso meio, a partir do interior de cada ser humano, “alegria de todo o povo como diz São Lucas em seu evangelho” (BOFF, 2001, p.32-35).
A conversão que Jesus nos anuncia é a transformação espiritual, em essência a transformação em nosso interior:
Mas essa transformação não começa e termina no interior de cada ser. A partir do interior, ela desencadeia uma rede de transformações na comunidade, na sociedade, nas relações com a natureza e com o universo inteiro (BOFF, 2001, p.36).
A separação do divino e do humano, a oposição entre o céu e a terra, o sentido dualista da espiritualidade  são idéias que determinam um desequilibro no ser humano: por um lado, a escolha de ir-se contra o corpo e contra o mundo terreno; por outro lado, um culto exclusivo à matéria, uma falta de sentido, um vazio existencial.  
Para Jean-Yves Leloup, o desenvolvimento da espiritualidade pressupõe a integração da imanência e da transcendência, a não oposição entre o céu e a terra, o ser espiritualista sem esquecer-se da dimensão corporal e o ser materialista sem esquecer-se da dimensão espiritual: “Porque o céu e a terra foram feitos para as núpcias. Assim como a matéria e o espírito são feitos para se unirem” (LELOUP, 2000 a, p.92). 
Muito da vida religiosa é separada do corpo, determinando uma dicotomia da pessoa e um conseqüente sofrimento: sente-se uma falta, uma perda, uma ausência. Faz-se necessário, portanto, cuidar do corpo e do espírito, em integração, pois ora estamos cuidando intensamente do espírito e ora estamos cuidando intensamente do corpo. “A cisão e a separação entre os mundos faz parte desta época doente”, dessa sociedade compartimentada que se prolonga em vivências de desencontro e desunião ESPIRITO AMIGO, B.N. 570, 2008, p.7).27
Na Psicologia Transpessoal, são definidos dois eixos que constituem seu corpo eórico, apresentados como idéias importantes para a compreensão do nosso processo integrativo e de transformação, simbolicamente representado por uma cruz, imanência e transcendência: eixo evolutivo e eixo experiencial. A linha horizontal representando o eixo experiencial, que contém a integração de quatro funções psíquicas: razão, emoção, intuição e sensação (REIS), que deverão se harmonizar como elementos do desenvolvimento humano, sem preponderância de um em detrimento do outro, sob pena de se criar situações que possam determinar desequilíbrio e desintegração. A linha vertical representa o  eixo evolutivo que se relaciona com percepções mais sutis da realidade, sentimento de união com a totalidade e expressão da natureza amorosa do ser (SALDANHA, 2008). 
Esse simbolismo da cruz nos remete ao sentido cristão e nos é lembrado por Jean-Yves Leloup e Leonardo Boff: o eixo horizontal representando nossos braços abertos para a humanidade, para os animais, para os vegetais, enfim, para tudo que está contido no planeta que habitamos, numa reverência amorosa de paz e de puro acolhimento; e o eixo vertical representando nosso caminho do enraizamento à abertura, nossa elevação à transcendência, ao divino, a Deus (LELOUP, 2000 a; BOFF, 2001). 

Boff, L (2001) - Espiritualidade

Postado por: Graça Carvalho

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